Entrevista para a TVI sobre o Dia do Cancro da Próstata.

18 de Maio, 2026

Entrevista para a TVI sobre o Dia do Cancro da Próstata.

18 de Maio, 2026

O que acontece realmente depois de uma vasectomia?

 

A vasectomia é um dos métodos contracetivos mais eficazes para os homens que decidem não ter mais filhos. Apesar de ser um procedimento seguro e amplamente realizado em todo o mundo, persistem muitos mitos que geram dúvidas e receios.

Para o Pedro Nogueira da Silva, médico urologista no Hospital Trofa Saúde Gaia, grande parte destas preocupações resulta de mitos que persistem há décadas e que não encontram sustentação na evidência científica.

A vasectomia consiste na interrupção dos canais deferentes, estruturas responsáveis por transportar os espermatozoides dos testículos para o sémen. Embora o procedimento impeça a presença de espermatozoides no ejaculado, não altera o funcionamento normal do organismo masculino.

Uma das ideias mais disseminadas é a de que a cirurgia afeta a vida sexual. No entanto, o especialista é perentório: “A vasectomia não interfere com o desejo sexual, ereção, prazer, orgasmo ou desempenho sexual.” Segundo explica ao 24notícias, os testículos continuam a funcionar normalmente e a produzir testosterona, pelo que não existe qualquer impacto na libido ou na capacidade sexual.

A associação entre vasectomia e alterações hormonais é outro equívoco frequente. “A produção hormonal mantém-se igual. A testosterona continua a ser produzida e libertada normalmente para o sangue”, esclarece o urologista. Isto acontece porque a cirurgia atua exclusivamente nos canais deferentes, sem interferir com os mecanismos responsáveis pela produção hormonal.

Ao longo dos anos, surgiram também teorias que relacionavam a vasectomia com um eventual aumento do risco de cancro da próstata ou de doenças cardiovasculares. Contudo, a investigação científica não confirmou essa ligação.

“Não há evidência científica sólida de que a vasectomia aumente o risco de cancro da próstata, doença cardiovascular ou outras doenças graves”, afirma Pedro Nogueira da Silva.

As dúvidas estendem-se igualmente às alterações na ejaculação. Muitos homens receiam que o volume do sémen diminua significativamente após a cirurgia, mas a realidade é diferente. Como os espermatozoides representam apenas uma pequena fração do volume total do ejaculado, a mudança é praticamente impercetível.

“Na prática, quase não há diferença”, refere o especialista. “A quantidade de ejaculado mantém-se praticamente igual”.

Embora seja frequentemente encarada como uma solução definitiva, existe ainda alguma confusão em torno da possibilidade de reversão. O médico alerta que a decisão deve ser tomada com plena consciência do seu caráter permanente.

“A vasectomia deve ser encarada como um método definitivo”, sublinha. Apesar de existirem técnicas cirúrgicas de reversão, o sucesso não é garantido e depende de fatores como o tempo decorrido desde a cirurgia ou a técnica utilizada.

A simplicidade do procedimento é outro aspeto que muitas vezes surpreende os doentes. Realizada habitualmente em regime de ambulatório, a intervenção demora entre 15 e 30 minutos. Durante a cirurgia, o médico identifica os canais deferentes através da pele do escroto, realiza uma pequena abertura e procede ao corte e encerramento dessas estruturas. O pós-operatório tende a ser simples.

“O desconforto costuma ser ligeiro durante alguns dias e controlável com gelo, repouso e analgésicos simples”, explica.

Ainda assim, importa desfazer um último mito: a proteção contra uma gravidez não é imediata. Após a cirurgia, podem permanecer espermatozoides nos canais deferentes durante algum tempo. Por isso, é necessário manter outro método contracetivo até que um espermograma confirme a ausência de espermatozoides no ejaculado. Este exame é geralmente realizado dois a três meses após o procedimento. Só depois dessa confirmação é que a eficácia da vasectomia pode ser considerada praticamente total.

Embora existam poucas contraindicações absolutas, situações como infeções genitais ativas, problemas graves de coagulação ou determinadas alterações anatómicas do escroto podem justificar o adiamento da cirurgia. Mais importante ainda é garantir que não existem dúvidas quanto ao desejo de ter filhos no futuro. Daí a relevância da consulta de aconselhamento prévia, onde são discutidas expectativas, riscos e implicações da decisão.

A responsabilidade pela contraceção continua muitas vezes concentrada nas mulheres, mas a vasectomia surge como uma opção segura, eficaz e pouco invasiva para os homens que já concluíram o seu projeto familiar.